Vento de Maio

Caio Augusto Leite - 20 - SP, Letras - USP: MEU BLOG
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setembro 16, 2014 9:52 am

Lygia Fagundes Telles

Memória sobre páginas
invenções
abruptas flores finas frágeis 
pétala a pétala abre-se livro
antes que morra, o ponto a página em branco
a capa a sinopse a cara de espanto
Meu Deus e agora, mas não tem amanhã
Sherazade mais cruel cheia de pontas abertas
estrela na noite mil direções e procuras
tapete mágico tecido nas madrugadas míticas
estátuas, aquários, meninas, rodando em ciranda 
mãos de maestra dança de palavras
literatura.

- Caio Augusto Leite

setembro 15, 2014 9:44 am

Cubo mágico

Na sala de espera olhando pro relógio, faltaria muito pra gritarem seu nome? Como odiava ter que ir ao médico, consulta, relatório do corpo, dizer que dói aqui, dói ali, esses pormenores íntimos que deveriam ser só dele. Mas estava bem, pra que mexer na ferida, pra que procurar pelo em ovo. De repente aquela manchinha que sempre passou despercebida pela vida podia ser um tumor, ah, pra que saber, se não saber é o modo que se vive melhor. Todas aquelas pessoas que levavam no corpo um sacrário, um altar, uma estátua de mármore dedicada ao próprio ser perfeito, ali, naquela sala entravam pra saber. Saber que vão morrer, eu que por vezes me esqueço e esqueço da natureza animal de um corpo que nasce pra acabar. Também vocês. Todos ali lendo as notícias mais antigas de um tempo que já não é, o casamento de tal com tal, já separados hoje em dia, a foto feliz, os olhos marejados de lágrimas. A foto da atriz que morreu no acidente de carro semana passada, ali, loira e magra, compondo planos para a velhice, fazendo poupança, assinando contratos para fazer comercial de margarina. Quem imaginaria. Bufando de tédio foi que viu na mesinha de centro. Viu na mesinha de centro o cubo mágico. Pegou o brinquedo com curiosidade, nunca tivera um e sempre imaginara como seria difícil conseguir arranjar aqueles pequenos quadradinhos, todas as faces de uma cor. Seis lados, seis caminhos para percorrer, e percorrer concomitante, colocar em ordem todos os fatores. O denominador comum da vida. Olhava o objeto construído, alguém que viera antes dele e montara. Agora havia essa perfeição em suas mãos e não sabia o que fazer dela. Olhava as pessoas ainda esperando o chamado do médico, uma levantava e desaparecia pela porta. Éramos agora seis pessoas na sala. Seis destinos. Distintos. Como foi que exatamente nós, que nunca nos fomos, viemos para aqui, nesse tempo e nesse espaço? Qual seria a lógica maquinal do mundo que com seus fluxos e influxos empurrou nossas histórias tão apartadas para cá, seria só obra da coincidência? Suspirava sem conseguir entender. Sem conseguir entender o que não entendia, pois tinha uma dúvida, mas não saber qual era a dúvida era sua dúvida multiplicada por seis como um caleidoscópio que se olha e se divide e se perde a imagem fugidia. Nunca mais terei aquela composição nos olhos. O silêncio abafado. Queria dizer alguma coisa, chegar perto, descobrir da vida alheia as mais ínfimas dores e graças. Não conseguia. Não podia abrir a boca e dizer: olá. Pois a primeira palavra que dissesse seria fria e automática, como a voz da secretária chamando o próximo nome sem saber da vida e da história da pessoa chamada, chamando o enforcado para se apresentar ao seu carrasco. Suspirou. Também eu? Também eu sou só um nome chamado pela boca neutra de uma secretária? As mãos estavam suadas. O objeto ainda na mão esperando, mas o primeiro movimento que desse em direção ao outro seria a desagregação pura, a primeira linha girada giraria outra e outra e de tal maneira que presto se instalaria a desarmonia. Por isso ficava quieto. Por isso apenas olhava o objeto. Olhava como quem tenta adivinhar no olho de uma estátua a sua mais profunda identidade, sem saber que estátua é oca e mesmo que não fosse nunca chegaria ao núcleo do que lhe é alheio. O relógio rodava. O paciente demorava pra sair do consultório. E as seis pessoas paradas propunham um jogo que ele não queria jogar. Mas sentia a cada pulsar do coração a necessidade que o levaria a cometer o ato gratuito. O ato instintivo. Olhou mais uma vez pro relógio, seria tarde? Olhou pras pessoas em redor. Aquelas que continuavam a ler as revistas. Quando uma delas se levantou para deixar uma e pegar outra na mesinha de centro ele decidiu. Pois se não fosse agora, não seria nunca mais, e aquela coisa em suas mãos estava ardendo como um ovo que se pega na panela após ter fervido e para não se queimar joga-se de uma mão para a outra e depois para a outra depois para a pessoa que teria que se livrar da batata quente, como era o nome da brincadeira entre as crianças. Hey, você, embaralha pra mim, depois passa pras outras pessoas embaralharem também. A mulher, agora sabemos que era uma mulher, olhou incrédula enquanto ele estendia a mão com o cubo mágico perfeito, como um presente, um pão que se multiplicaria para matar a fome de todos. Ela hesitou como quem hesita ante a graça e não vendo nenhum mal naquilo, pegou o objeto. Foi tal aleluia no corpo do rapaz, por ter se desfeito do ovo em chamas que sentou mais leve, como que sem o peso de um mundo ou de uma pedra que se rola montanha acima para depois deixá-la cair e repetir o feito, eternamente, quebrara o ciclo. Ou só o iniciara? A mulher sentou e girou o cubo algumas vezes, doía como quando alguém vem e torce seu braço pra chamar atenção por alguma coisa errada que você fez. Ter violado o sacrário da paz foi um erro tão profundo que agora não tinha mais volta. A mulher olhando e já não sabendo como girar entregou o cubo ao rapaz que estava ao seu lado e assim sucessivamente. Cada um colocando no brinquedo seus destinos desvairados. Gira pra lá e pra cá. Pois nunca seis vidas juntas seriam monocromáticas, seriam sempre o encontro de outras vidas e mais antigas e outras novas, encontros e despedidas e coisas que nunca se terminariam de acabar e nunca acabaria de girar, pelo menos enquanto houvesse vida. E mesmo depois da morte, nunca se morria por inteiro, morria-se multiplicado. Quantas vezes não ouvimos quando um dos amantes parte e o que fica diz: foi-se uma parte de mim. Mas não olhamos e não vemos que também: ficou-se uma parte do outro aqui. Aquele quadradinho vermelho no meio dos outros azuis. Quando a quinta pessoa da roda acabou de girar o cubo. Quando ela se levantou e entregou-o ao primeiro rapaz, aquele que pegou o brinquedo na mesa, quando ele recebeu a desordem na mão, a porta abriu e seu nome foi chamado. Engoliu em seco. Olhou para todas aquelas pessoas que agora, por algum motivo, estavam ligadas a ele. No meio da sela o nome ecoando. O cubo desfeito pedia para ser montado, mas ele não sabia como, como não sabia o que fazer de seu destino, pois não era mais só o seu destino, era o destino de seis pessoas e seus movimentos eram movimentos no eixo nerval da matéria viva; indo pra lá mudaria a rota não só sua, mas de quem ia com ele. Efeito dominó. Mas o nome cada vez mais alto, ele piscou várias vezes, mas sou eu, sou eu quem chamam. Virou o corpo a porta aberta, olhou ainda uma última vez para aquelas pessoas, aquelas que não veria nunca mais. Ergueu a cabeça, resoluto. Deu um passo e depois outro. A engrenagem rodava, as cores misturavam-se novamente. Moveu os dedos, rotacionou a história, abriu espaço e entrou naquela estranha dança. Na estranha sala. Sentou fitou o médico nos olhos, o médico fitava o cubo que se reproduzia na superfície dos óculos, o futuro. O trabalho de tantas linhas cruzadas. Tantas tramas. O enigma que o rapaz não sabia – ainda – resolver.

- Caio Augusto Leite

setembro 14, 2014 5:56 pm

O rato II

Há um fantasma de rato no box do meu banheiro. Vivo, respira encolhido feito pedra paleolítica.

- Renato Virginio, “O rato”.

O galo cantou a madrugada. Acordei assustado. Ainda frio e suando, tive pesadelo. A culpa é sua. Sei que de algum modo me impressiono com as coisas que você me conta. Das coisas que você vive ou inventa, não sei. Pra mim é tudo verdade. Seu gosto pelo dramático, o sangue que escorre das palavras, caindo da boca numa cantiga ditirâmbica, aedo que és. Drama! Todo seu ser foi feito pro palco, se jogando no chão, descabelado, arrancando risos e choros da plateia. Minha sereia alada, e se sobrevivo é só porque me amarro ao mastro da realidade e navego seguro de mim mesmo, esse desejo louco que me vem, de ir ao seu encontro. Mas seria fatal. Eu fico. Mas guardo no peito essas suas palavras noturnas que se deformam no seio da noite em grotescas imagens. Você que me contou que ontem entrou no box do seu banheiro um rato e que matou-o com goles de água fervente, eu me impressionei, depois fiquei sem saber se falava a sério. Sei que dormi com isso na cabeça, fixação, obsessivo, fissura do inconsciente. De repente tô de cara pro rodapé da casa. Da sua casa, sei que é sua casa, esse piso de madeira, toc-toc meus pés no taco. Pés? Patinhas, quatro patinhas. Como era isso? O que fazia eu no rodapé de sua casa, andando de quatro. Até que veio o grito. Grito de mulher. O baque da colher caindo no chão. O que foi, mãe? Ouvi sua voz gritar longe, longe. Fiquei feliz de ouvir sua voz. Um rato, um rato aqui na cozinha. Onde? Olhei pros lados, meu temor enorme desses animais asquerosos. A grande colher caída. Seu espelho, côncavo ou convexo (não sei), me aproximei e vi. E o que vi deveria ter produzido um grito humano, mas ouvi de minha própria boca mínima o guinchar assustado a cara de ponta cabeça de um enorme e peludo rato negro. E então seus pés enormes surgindo, apressados, esse seu jeito de chegar de repente, desabalado, como se sempre estivesse atrasado pra vida. Você me olhou, eu te olhei. No meio do caminho. Mas era nojo em seu rosto? Nojo de mim? Mas o que foi que eu te fiz, amor? Eu dei um passo pra frente, você recuou, você avançou, recuei. Acuado no canto do cômodo. Era um jogo como quando assistia Tom & Jerry na TV, mas haveria salvação para um rato de carne e osso feito pra ser caça? Você ameaçou pegar a vassoura, meu coração, meu pequeno coração bateu. Você sabia que o coração de um rato bate milhares de vezes por minuto? Eu acho que li isso em algum lugar, não sei se é verdade. Mas naquele momento meu pequeno coração de roedor batia, eu queria me salvar? Se eu quisesse me salvar era esse o instante. Enquanto você vacilava entre a pancada e o pecado de matar, eu corri.

Mas minha intuição que nunca soube ser rato me jogou no lugar mais idiota que havia. A minha intuição que não sabia que do gato se foge pela saída e não entrando mais e mais no labirinto. O banheiro. Agora caíra numa armadilha, numa cilada armada por mim mesmo, minha burrice essencial de acreditar no que me contam. Entrei de cabeça derrapei na umidade do box e você fechou a porta, ágil. E agora? Matou o rato, filho. A voz aguda gritava. Esse maldito entrou no box do banheiro, mas de mim ele não escapa. Que faria agora? O box e sua porta era uma parede imensa. Vi sua cabeça enorme, distante, lá de cima. Era assim Deus me olhando? Tentei subir pela porta, mas o material escorregadio não permitia que eu subisse, o ralo também não era uma saída possível e a janela estava fechada. Era meu fim? Sei que tudo que começa tem um fim. Mas como seria. Qual seria a saída. Qual seria o jeito que você encontraria para dar cabo de mim? Só peço que seja rápido e indolor, é que esse banheiro fechado, essa umidade, esse cheiro de mofo vai consumindo meu corpo. Mesmo que eu seja o mais asqueroso dos animais, eu tenho vida. Essa mesma vida que se acaba na mosca que a aranha pega no teto, longe, a lâmpada da salvação. Ora pro nobis. Ave Maria me vira as costas incompadecida. A aranha suga a matéria de uma mosca. Sua cara aparece gigante. Uma lua cheia em noite de Veneza, belo dia pra morrer, não acha? A gôndola do desespero. Espero, será que jogará pão com veneno? Não vou comer, não vou. Mesmo que me venha a fome, não comerei o pão compartilhado e multiplicado. Prefiro morrer de fome do que compactuar com a sua bondosa traição. Continuo esperando, vamos, faça, jogue esse pão maldito. Mas quando olho, quando vejo, quando reparo. Seus olhos brilham alguma coisa demoníaca. Eu nunca te vi assim. A água cai. A água quente do inferno. O próprio gosto do inferno em minha pele chamuscando, comendo, ardendo, churrasco de rato no banheiro. Você agora me olha, arrependido? Ou assustado por eu não ter ainda morrido. Eu ainda não morri, ouviu. Eu solto guinchos agudos eletrônicos pelo ar e nesse instante nasce um quasar no infinito. A dor é bela. Da segunda vez seu olhar tem um dó estranho. Como quem rouba por fome. É preciso, eu não quero, mas é preciso. Parece dizer agora seu olhar de santo. O halo da luz envolve sua cabeça. É mais difícil matar do que morrer. A água caiu mais uma vez. Mais um quasar no céu. Da terceira vez que te vi seu rosto estava pálido e sem expressão. Por que você não morre, me gritou. A lava viva caindo em meu corpo. Sem Verbo pra gritar. O espírito agitou as águas. A quarta vez você apenas olhou. Morreu, filho? Ainda não, mas acho que falta pouco… Eu esperava a dor e você jogou a água pela pia. Talvez saiba que agora entrei num caminho sem volta. Já não precisa acabar. O fim vem da espera. Ou talvez tenha perdido a coragem. Ou sentido pena. Compaixão mesmo, compaixão pelo que não se é. E por ter te feito um pouco mais humano, eu perdoei Deus. A pele queimada, a inquisição sem crime. Ter nascido rato é um crime? Um rato é um erro de Deus. Ou é Deus um erro de vocês? Quando a porta abriu e vi sua mãe, impiedosa, com a vassoura na mão pronta para o golpe final, você ao lado querendo impedir e não podendo, quando a porta abriu eu acordei e me encontrei. Ouvindo esse galo longe, longe. Meu coração na boca, minha pele ardendo ainda. Eu quis te ligar correndo, mas parei no meio do caminho, com medo que você risse na minha cara, com medo de me encolher demais nos teus braços, do tamanho de um ratinho que cabe na palma da mão. Mas alguma coisa me diz que parece já tarde demais e se não morro é por pura falta de coragem de você abrir a porta e me dar a vassourada do destino. Ou estou dando a tudo um significado mais cósmico quando o que você quis me dizer, ontem, foi que matou um rato no box do banheiro. Só isso.

- Caio Augusto Leite

setembro 13, 2014 11:05 pm

Agora pouco antes de escrever

o que falta nessa hora 
concentração sobre o ponto fixo
ponto de fuga, quem foge o ponto ou o olho
as casas apontam o horizonte o horizonte converge de lá em mim cá
sou infinito?

Quando fito o último raio devolve-me a luz?
no escuro do chão em zen yoga lótus
procuro os pontos mínimos minha flor

as raízes planam sem cor, sem local, aéreas!

fechado os olhos - abri-los - pena do pavão Krishna

O papel branco eterno as horas mudas como correm

Partam ponteiros

Vesgo no ponto o ponto desponta a vaga rola e encontro-o

Ei-lo.

Poema.

- Caio Augusto Leite

setembro 12, 2014 8:40 am

Desconto

Luís era daqueles que atravancava a fila do mercado só pra pedir um precinho menor. Que dava voltas e voltas pelas lojas até arrancar dos vendedores cansados o máximo de desconto que conseguisse e conseguia. Voltar de mãos abananando não era com ele. Luís fez fama nos bairros comerciais que frequentava e é figura histórica do compêndio de personagens fictícias levemente inspiradas na realidade palpável – levemente. Como toda boa personagem, desde Alexandre, o Grande e Ivan, o Terrível, Luís também ganhou epíteto, alcunha óbvia, mas acertada, de Luís Desconto. Os leigos no assunto pensarão que é pura questão de sovinice ou caso grave de pão-durice crônica, não era só isso. É que Luís sabia que cada coisa tinha um preço, e que além do preço havia um outro preço que ele deveria pagar. Luís fazia as contas e reconhecia que mesmo com tanta pechincha ele ainda pagava mais do que precisava. Os impostos! Os impostos! Ele dizia tentando explicar para as pessoas que simplesmente se acomodavam e pagavam o preço sugerido: umas pois eram abastadas e não precisavam se preocupar com isso, as outras, pois não tinha tempo ou forças para lutar contra o inadiável: pagar mais. Era na feira, no shopping, na livraria, na concessionária. Não importava o grau de formalidade do estabelecimento, desde a dúzia de laranjas na barraca do Zé até o terreno que compraria no Campo Limpo, Luís colocava em tudo sua prática retórica de pesar um pouco pro outro lado o braço da balança. Como ele conseguia, às vezes nem ele mesmo sabia, era mais forte do que ele. A mulher colocava a mão na cara – de vergonha. Os filhos preferiam nem acompanhar o pai em dias de negociação. Mas tinha vez que era inescapável, andando por aí sem rumo ele via uma promoção de cadeira de cabeleireiro. Pra que ele queria uma cadeira de cabeleireiro nem ele sabia. Mas era promoção. E foram lá, pai e filhos, ver a tal cadeira. Até aí tudo bem, não fosse a vontade de Luís entrando em ação. E os rapazes incrédulos saíram de lá levando a tal cadeira pagando menos da metade do que custava antes da promoção. Era um fenômeno. Hoje o mesmo o inutensílio está na garagem erguido como estátua do nada, prova irrefutável dos dons de Luís. Mas ele queria mais.

Luís queria menos, pagar menos e ter mais. Não era uma questão só de atalho, de caminho mais fácil. Fácil é pra quem tem muito e paga sem nem olhar a nota fiscal. Não, Luís queria menos preço através de seu esforço labial. Só assim tinha graça. E só assim se sentia satisfeito, embora no minuto seguinte ele já se sentisse tentado a ir buscar por outras freguesias o grande desconto de sua vida. E o grande desconto era sempre o que viria a seguir. O que frustrava Luís era quando conseguia um desconto excelente e sentia que seria difícil superar a si mesmo. E era assim, na próxima compra que fazia o preço cobrado não tinha tanta vantagem e ele tinha medo. Esse era também o risco da obra-prima. Por isso Luís era zeloso, e quando via que poderia ir mais além, não ia. Porque se fosse de uma vez poderia se ultrapassar pra sempre. Então ele segurava a mão e voltava atrás naquele preço ainda bom, mas não absurdamente fundo. A consciência do passo maior que a perna. Tudo isso era um vício sem acabamento, pois com tantas coisas que comprava precisava sempre de um lugar maior para guarda-las, então ia criando anexos pela propriedade, então usava sua tática na compra do cimento, da areia, do contrato do pedreiro. Depois ia comprando outras propriedades também pagando menos e de menos em menos ele ia podendo ter aquilo tudo que queria, embora trabalhasse e não ganhasse muito. O segredo não estava no muito, estava no menos. Mirava o menos como se olha a um espelho fixamente até que consiga olhar e não se ver, ver apenas a superfície oca do espelho sem imagem alguma refletida. Essa visão maravilhosa do impossível. Luís ficava muito tempo na frente de um espelho tentando não se ver. Repetindo para si mesmo: eu posso, eu posso, eu posso. Porém ainda conseguia se ver e ver a sala em redor. Estaria um dia pronto para a perfeição do que é nulo? Estaria preparado para a glória de poder pagar aquela mansão com um cheque em branco, com um cheque sem fundo e não ser pego pela polícia? Mas isso é ganhar de presente. Exato. Mas não como um presente com motivo: é seu aniversário, é Natal, é sei lá quê. Mas um presente que viesse da própria voz de Luís. Um jeito de ter não por dó ou amor. Mas ter pelo modo mais bruto e duro, batalhando com aquilo que se quer. Não ter a beleza só porque alguém que te quer muito diz: que bonito! Mas pelo avesso, encontrar a beleza dada pela pessoa que mais te desconhece e mais te odeia. Esse era o sentido da busca doida de Luís. A tentativa de ganhar, sim, mas ganhar por dom, por empenho, por engenho. Nunca de mão beijada. Os que vencem de mão beijada podem até ser felizes por um certo tempo, exibindo seus troféus de areia. Mas os que ganham com fé, ah, esses nem sabem que são felizes. Apenas sentem esse êxtase profundo que vai crescendo do fundo de alguma coisa tão obscura que é por isso também inominável. Luís esperava esse grande salto. Esse vazio no reflexo. Essa sensação de se cair num abismo sem chão um voo infindo dentro da própria existência. Um núcleo envolto por camadas duras bombardeadas a cada mínimo desconto que conseguia. Essa queda no invisível. Enquanto não vem este cavalo negro das areias do deserto para trazer o oásis gratuito, sem miragem, Luís compra bananas verdes na feira.

- Caio Augusto Leite

setembro 10, 2014 9:37 pm

Artesanato

Dedilho dálias jardim de palavras
recorto jornais antigos novas notícias velhas
colo fotos de artistas mortas pelas parede, lindas
apago a luz, fosforesce a mudez dentro das linhas
entrelinhas buscam ar, fôlego, luz para as pétalas
de sulfite para que não envelheçam nas minhas paredes as ideias

que no fogo em cinza fênix redivivem
reclímax recicladas folhas ásperas 
sucatas gastas prontas para novos galhos
- ainda tímidos - 
o passado sobre o passado sobre o passado

fruto-furto-futuro

todo-dia.

Farto.

- Caio Augusto Leite

setembro 9, 2014 7:18 am

Dentro da luz da noite

Fotos, fotos
no amontoado de revistas antigas
o Mc Donald’s
o Mapping
o Motel
- NEON -

Borrão de cor & luz manejado
curvo até que palavra pareça.

Nas praças, nos postes
globos de força-energia
enganando as estrelas.

Lá fora - agora - o tempo.
Neon kitsch,
neon fora de moda
ainda em motéis melosos

- DOCE PAIXÃO - 
o amor é brega - eternamente
se derrama, mel de vício e enjoo,
acaba todo-dia hoje mesmo revigora

Viva o LED
o plasma
a tecnologia mais avançada
- mas crianças ainda nascem de úteros -
um dia serão impressas,
disponíveis para download
sem a vibração do neon falho?

Darão mulheres a luz,
no museu se apagará a última lâmpada incandescente
- BREU - 

No zênite o sol ainda modulando
noite
dia,
mesmo que ninguém haja
que o diga.

Em Minas, onde a morte demora mais pra chegar
morrendo o último cabra da planície-mundo
sem ter quem lhe feche o olhar
brilhará no reflexo o pulsar e o quasar.

Sem nexo.
Extinta luz
extinto corpo
dois passados que já não são
(quem o sabe?)
sem nunca se darem conto disso.

Ficará no alheio, na areia o poema
grafite retorcido, inútil como o neon brilhando AMOR
sem verbo que o esclareça,

Dentro da noite veloz
A cinza das horas
A hora da estrela
etc, etc, etc.

- Caio Augusto Leite

setembro 7, 2014 2:50 pm
Lendo poesia #31 - Cê nem sabe - Caio Augusto Leite

nem tô ouvindo mais Roberto,

bicho,

anda árido os discos os sulcos feridos

empoeirados, quantos dias que não canto

fico quieto no chuveiro água do tempo

vazio os versos no racho riacho de poesia ralo abaixo

escorrem encolho e choro ao meio

sinto que estou perdendo algo grande precioso

cê nem sabe, cê nem imagina a dor no osso que é ficar sozinho

ligar a TV dar boa-noite pro Bonner deitar dormir sem saber que dia é hoje

que dia amanhã, cê nem sabe como é ficar de cara pro fim

segurando madrugadas, equilibrando as horas pra não cair.

- Caio Augusto Leite

setembro 6, 2014 7:00 pm

O V O

"… mal vejo um ovo e já se torna ter visto um ovo há três milênios"
- Clarice Lispector

Miro o ovo
na mesa
branco.

miro o ovo
a mancha
branca.

sobre a mesa
inconfundível
só pode ser 
por não ser outro
ovo e branco.

ovo tudo.

Se miro ovo
se aperto o olho
decomponho:

faixa ovo
sete ovos
cores todos
os ovos,

vermelho (…) roxo

Branco nulo
neutro por ser tudo
tudo é vazio.

Fecho a luz de mim
no escuro ainda há ali o ovo:

se me movo um passo pro lado
será ainda oval ali parado um ovo?

Ou já virou retrato,
prato, sol estalado no calor da cozinha,

já virou conto de Clarice?

Olho e lá parado um ovo
branco.

Quando miro de novo
a mosca e seu voo
o espaço sem centro.

Perdido na memória
na cozinha,
no livro,
no bolo.

A vida é vasta para caber no olhar
todo o tempo seria só a medida de calcular
- nos ângulos, na cromatura, no peso -
o molde indisponível,

bom com ele,
melhor sem.

Só virei-me para ligar a Tevê
na perda do ouro frito
o sólido doer de ter e não ser

nunca mais o branco
para que a casa continue
a fábrica apite o mar ondule

olvidar 
a forma

ver-sem-ver

o
v
o

- Caio Augusto Leite

setembro 3, 2014 10:21 pm

Nunca mais antes

Beterraba
perturbada do repouso sono
transposta da terra à louça
salada.

No caminho do prato pedaço no pano
trilho de fogo que se espalha
queima feito futuro.

Por mais que caia fuligem
negror cinzas o fluxo a devoração
do pó ao pó, terra terra.

Só em círculos, novos, perdas
recomeços amigos, malditos.

Arado o chão a raiz nova
todo dia perder-se de arrancada
em arrancada:
desplantar-se:

- Julgarás que isto é morte.

Na boca mastiga a beterraba rubra o coração vibra
mas vida.

- Caio Augusto Leite