Vento de Maio

Caio Augusto Leite - 20 - SP, Letras - USP: MEU BLOG
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julho 23, 2014 8:58 am

Indelével via

pau, pedra, velhos moinhos
errante ruas do sem fim
morte sem checkpoint
empenho & vate
para o futuro já sabido
futuro postergado
adianta perder-se
adianta livre-arbítrio
por qualquer via
o fim do caminho
é pau pedra cruz martírio

- Caio Augusto Leite

julho 22, 2014 10:27 pm

Acuário

Ar, ar, ar
por lados todos
iguânimes ângulos
bola azul in cosmos

sobrevivendo

casas telhados
aqui acolá
ignorante condição

aquário de sala 
redondo mundo cristal
peixe palhaço, peixe operário

fazendo? nadando.
aqui acolá.

no aquário pequeno castelo
dentro um bauzinho
no de-dentro mais aquários
mundo abismo.

- Caio Augusto Leite

julho 21, 2014 4:09 pm

América

Ecuador sul do mundo
selvagem flor em jaula
veia no pulso, sangue magma
mulheres, meninos, loucos reuni-vos
catedral praça zero
suor de mil batalhas
ralos, rios, oceanos 
horizonte lacrimoso Atlântico.

- Caio Augusto Leite

julho 20, 2014 10:44 pm

Natimorto

O que não escrevi está chorando em mim.

- Caio Augusto Leite

julho 19, 2014 10:32 am

Um pouco por dia

Nítido o muro alto 
lindo mosaico de pessoas
cruzando mudando caleidosc-
ópio giros passos cair
… ? … 

Suicidas banais de uma vez só
aleluia
o mosaico, se caio é talvez
do chão redivivo tudo e tanto aos poucos
morrer em mil apartamentos.

- Caio Augusto Leite

julho 18, 2014 8:03 pm

Do acaso do meu corpo

Certos versos não seriam certos
nem as mãos daquelas árvores teriam sido
vivas as moscas mortas, mortos os sedentos 
mágoa riso choro tudo à míngua
a língua não rimaria nem amaria nem Maria haveria
se não fosse poema átomos livres colidiriam no cosmo
Estrela.

- Caio Augusto Leite

julho 17, 2014 11:52 am julho 16, 2014 7:47 pm

Amor

A 23 de Maio escurecia lá embaixo. Os carros, ônibus e motos passavam. Os aviões no ar. As buzinas, os motores. O barulho feroz da cidade. Pessoas gritando, falando ao celular, o vento do norte e o frio da noite. No trânsito de tantos seres indo e vindo, ninguém reparou quando José sentou-se nas grades que separavam a ponte da avenida lá embaixo. A lua cheia. Mas José também não prestava atenção ao que ao seu redor era turbilhão. José olhava e só olhava. Olhar era seu modo de saber o mundo. Olhar e tocar. Ele que nunca ouvira palavra, via as placas dos ônibus sem conseguir atinar como se lia aquilo. O som inexistente. O abafado nos ouvidos. José era surdo. José olhava a avenida. Calmo. Não se assustava com nada. Poderia ali naquele instante cair bombas e bombas às suas costas e somente a vibração da terra seria capaz de fazê-lo virar o rosto e olhar. Não adiantava chamar seu nome. Ele que só seu sabia seu nome assim: J O S É. Mas sabia que o “O” era fechado e o E com esse símbolo “ ´ ” é aberto. O nome mais do comum do mundo. O pai do filho do dono do mundo tinha esse nome e José não sabia como pronunciar seu próprio ser. Bastava ser. Sem ser o nome. Nem o seu som. E o que pensava José? Em que sistema único de linguagem ele interpretava e inventava o planeta? Se não era em português ou inglês, era uma vida sem som também dentro da cabeça? O que sonhava José quando queria que as emoções explodissem, como gritava José nos sonhos em que algo terrível acontecia, sabia José gritar? Sabia olhar a cidade e associar a cada coisa uma outra coisa que em seu mundo de códigos fazia sentido? Eu queria estar ali em José. Para poder compreender esse incompreensível sistema. Esses signos originais e só dele. Pois para ele ônibus se pronunciaria de maneira diversa, e ônibus podia também representar outra coisa no mundo. Nem seria ônibus, seriam gestos, cores, vibrações. A linguagem fora da palavra, a linguagem do corpo. Sensitiva. Um jeito belo e complexo e impossível de decifrar. Como ele explicaria pra gente o amor que sente pela amada que não o corresponde, como é a sua angústia, é a mesma angústia que a gente sente? Talvez ele associe angústia com outras coisas, com aperto, com fila grande, com cores. Cinza ou negro. E o amor seria vermelho também pra ele? Como nós poderíamos explicar nossos sentimentos se mesmo a quem sabe os signos representativos isso era impossível? Eu que não explico o amor ao meu vizinho e nem ao meu colega de bar. Não explicaria nunca o meu amor e o meu amor não faria sentido pra José. José não queria saber do amor de ninguém. Ele amava pelo jeito, pela forma que era também o próprio conteúdo, sem separação. Era também aquela lua cheia um símbolo do sentimento? A lua e o mar? Também para ele que não sabia do barulho das ondas e não ouvia nada quando colocava a concha no ouvido. José estava parado na ponta de ponte, se jogaria de lá de cima? Ele não pensava que as pessoas pudessem pensar isso, mas é que ele não tinha em seu mundo essa representação do suicídio na ponte. Para ele uma pessoa sentada na beira da ponte é só uma pessoa na beira da ponte. Ou um pessoa que quer ver o horizonte, o céu, a rua lá embaixo. Mas não as outras pessoas que queriam que todos nós pensássemos igual.

As pessoas que passavam começavam a reparar em José ali sentado balançando os pés no ar, metros e metros de distância do chão. E começaram a olhar. A chamar. Hey, saia daí. Hey, você pode cair. Será que ele quer se jogar? Ele não respondia, ficava ali, apenas, olhando. Com saudade de Maria, sua querida Maria. A mulher da sua vida. A mulher que nunca ouvira a voz, que amara pelo perfume e pela textura. E pelo jeito que pronunciava as palavras que não sabia como eram. Tudo diferente, porém o mesmo. José o homem de todo o sempre. Mas as pessoas insistiam em querer figurar aquele instante como o fim da vida, quando na verdade aquela decisão era outra. José ia se declarar para Maria. Não com seresta. Mas com um abraço. Os braços falam. Os braços giram. Dançaria com Maria para que ela soubesse o que ele sentia. O amor baila. Chegou polícia, chegou helicóptero, imprensa, ambulâncias e nada disso José ouvia, só via passar o tempo e a coragem de chegar na mulher preferida. Ninguém tinha coragem de chegar perto dele, medo de ele se atirar ao menor contato. Mas onde as pessoas viam a morte era justamente onde nascia a vida. Respirou fundo o homem. Era preciso ir. Quando começou a se mexer as pessoas respiraram fundo. Ah, ele vai pular. Não faça isso. Meu deus, não quero nem ver. Mas contrariando todas as expectativas, ele simplesmente se virou. Desceu das grades e não entendeu aquela quantidade toda de pessoas paradas olhando para ele. O que todas elas queriam? Não podia saber. Não compreendia as palavras gritadas no ar e mortas em seus ouvidos ocos. Olhava de um rosto para outro. Pareciam aflitos, isso ele sabia. O que elas pensavam? O que José pensa? O que eu penso. Ninguém sabe. Mas do meio da multidão José pôde ver um rosto conhecido. O rosto belo de Maria. O rosto espantado e pálido de Maria. Ela abriu espaço e gritou algo que todos os outros ouviram, abriram a roda e ela se aproximou dele com os olhos cheios de lágrimas. Ela abraçou o rapaz. Beijou-o. Ele arregalou os olhos. Beijou de volta como se dissesse que a amava. Ela entendia. Ela disse: Eu te amo. E ele não precisava ouvir para entender. O amor é a própria tradução de si no outro, sem palavra ou gesto. O amor é.

- Caio Augusto Leite

julho 15, 2014 3:15 pm

Anti-epígrafe

[Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. 
Salmos 23:4]

Imenso verde prado
réplica de nuvem ovelha pasta
passa pelos olhos o véu da noite
o sol apagado congela sonhos
longe o fogo queima milênios
luz-guia do futuro caminha, ovelha
ordena voz música, trombone do céu
chama-início perto apercebe-se ovelha
oliveira em brasas acesas fiat lux!
desce a carne à pira paira no imenso 
cinza anônima fumaça desfeita

Nada

- Caio Augusto Leite

julho 13, 2014 10:18 am

Pirituba-Luz

São Paulo. Ah, São Paulo dos arranha-céus, do Copan e do Martinelli. Das Avenidas Paulistas, 23 de maio e Rebouças. Das empresas e fábricas. Dos parques do Ibirapuera e Trianon. Do metrô indo e vindo por debaixo da terra. A metrópole do futuro. Quem te vê assim pelos enquadramentos das lentes televisionadas nem te imagina como te vejo. Mosaico sobreposto. Desfronteirado, sem Tordesilhas que a limite. Quem já pegou a Linha Rubi sabe. Desde Jundiaí até Pirituba, passando por cidades pequenas, pelo pico, matas e matas. Falo a partir daqui, de Pirituba, que é onde entro pela porta da frente por essa história. Tantas vezes cheio, tantas vezes apertado e lento. Mas vai o trem sacolejando pelos trilhos antigos. Onde estaria aquele glamour e aquela cidade boêmia que nos vendem? São Paulo tantas vezes mistério e tantas vezes coração selvagem, pulsando mínimo ainda resistindo ao concreto avançando. Ou vai dizer que nunca reparou naquele pequeno trecho entre Pirituba e Piqueri onde as casas simples de madeira erguem-se pelas ruelas de terra, onde ainda galinhas ciscam e cachorros correm atrás de gatos. E ratos comem o fino mato que cresce na calçada que não é calçada, onde começa a rua onde a casa? Mas quem passar por esse trecho verá as bananeiras plantadas por mão nenhuma, ali estão, por estar. Yes, nós temos bananas. O esgoto corre fino por entre os pés descalços, o barro amolece, faz pegada. O trem continua. É a partir daqui que a coisa começa a mudar. Passando pelo rio. Do outro lado do rio. O rio é um risco no mapa, divisor de águas – literalmente. Tietê imundo, semivivo, união dos dois lados, intersecção da cidade e do morro. Depois do rio sem peixes e sem barcos e sem nados, depois do rio vem. O trecho Piqueri-Lapa vai assinalando as primeiras visões marcadas em nossa retina da cidade. Prédios, empresas, Polícia Federal. Um mundo ordenado. O oficial dos dias, com leis e algemas. Bandidos de colarinho branco. Lojas populares. Na rua Willian Speers o Hotel Papillon e seu neon ainda apagado, espera a noite chegar. Pessoas comprando e vendendo. E pra quê 25 de março? O mercadão, seus condimentos, lojas de doce, painéis de isopor pendurados – motivos infantis, Mickey é o rato que amamos por não conhecê-lo. Aqui é onde mais enche. E o trem segue.

Se você piscar os olhos nem vai reparar que já chegou na próxima estação. Água Branca é o entrelugar. O sininho toca. É onde o trem cruza a rua e as pessoas e os carros esperam a passagem dos vagões. Daqui vejo um bar e só, o que há pra lá. Água Branca pura e mítica, um dia desço para descobrir-te. De verdade, estação fantasma. Quase ninguém sobe, quase ninguém desce. Pausa para liberação do trecho à frente. Enquanto o trem está parado fico olhando pela janelinha o quadro estático de uma cidade ainda sem brilho. Provavelmente passa lá na frente algum trem de carga. Metros e metros de ferro carregando ferro para fazer mais trens de ferro, auto-gestação. Mas enfim, o trem dá o sinal a porta fecha e vamos embora. Também rápida é a passagem entre Água Branca e Barra Funda. Mas podemos ver, já, as mudanças e um pouco da cidade que ajudaram a pintar os veículos de comunicação. Vemos o metrô da linha vermelha, os prédios altos, os parques, o símbolo do time do Nacional. Pra lá sei que estão Palmeiras e São Paulo. Se por um muro separados como não se explodem? Se equilibram tensos dentro da própria dialética, até que percam um jogo e os muros pichados com “Fora - - -”, insira o nome do técnico da vez. Numa ponta Palmeiras, na outra o Corinthians. Melhor não brincar com a sorte. Penso que também vejo uma parte do estádio, não tenho certeza. É quase um topo, melhor que isso só o que vem depois do depois. Depois da Barra Funda vem o trecho que (para mim) é o que mais demora. O centro e suas ruas comerciais e seus prédios arquitetura passadista. O elo entre o agora o passado, o trem também é um rio. De um lado vejo as casinhas também simples, também pobres, como se agora estivéssemos num ponto-chave onde brutalidade e jardim se unem. Do outro lado vejo a torre do relógio erguendo-se majestosa. Estação da Luz. Estação dos ingleses. Daqui vamos pra qualquer lugar. Linha Coral do trem. Linha Azul ou Amarela. Aqui o trem realmente fica lento. Adiando o momento de chegar e deixando nós, que vemos o enorme relógio, com agonia pelo atraso girando na nossa cara e não podemos fazer nada. É só o começo do dia.

Depois, de noite, faço o caminho contrário. Saio da luz da cidade para o seu recôndito e vejo a cada estação o escuro se avolumando. Crescendo, como se eu voltasse para o útero do mundo, meu lar. Tantas vezes distante, tantas vezes esquecido. É cidade ou bairro. Escuto o silêncio que se abate sobre tudo. Lâmpadas aqui e ali, são quase lampiões e as estrelas menos apagadas do que lá atrás, no centro urbano onde carros disputam espaço. Eu desço e subo as escadas. Vejo o pico e a torre do pico. Pico onde se encerra luz e treva. Mágico e real. O mistério visto daqui. Então desço de novo as escadas e na rua sigo pra casa sabendo que sei São Paulo, além dos Masp e MAM. Digo que de casa vejo a bandeira do Banespa acenando, vejo a Paulista, vejo o horizonte. Entre aqui e lá um vale que atravesso. Tantas lonjuras, tantas pequenezas. Sobre o céu os aviões. E sobre o céu do céu o Cruzeiro do Sul. E a Via Láctea como um rio ligando o mato ao fato pela noite do Brasil.

- Caio Augusto Leite