Vento de Maio

Caio Augusto Leite - 20 - SP, Letras - USP: MEU BLOG
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agosto 20, 2014 9:39 pm

Sempre-feira

Devastada violenta
Domingo no parque sem sorvete
a grama podia ser mais verde
houvesse verde pra dizer
onde está?

No poste colada
a tarja: 
PROCURO-ME

Linguagem.

Pende um fruto escuro daquela árvore
futuro semente cimento seco
o átrio fechado o sangue que coagula
talvez nunca mais haja hoje
segunda-feira
segunda-feira
segunda-feira
sete vezes sempre 
segunda-feira.

- Caio Augusto Leite

agosto 18, 2014 9:29 am

Matrioska

Rio clarificado exatamente fluxo-ritmo
correnteza e erosão, leito raspado em fluidez
cada dia mais fundo cada dia menos cabe um rio no rio
plantar na margem pés-de-cachimbo domingo pede
não pede mais, o que não se move na curva fica, seca, morre
cada dia mais fundo e largo
r i o
que só o mar envolve
e mar?
Amar

- Caio Augusto Leite

agosto 16, 2014 9:27 am

Poema fim

na terra o choro de saudade
que verso na lápide poesia será
quando partido ao meio o poeta 
sem escolher a última epígrafe
entrada da morte epílogo da vida
se vejo qualquer palavra amo
que lixo: dirias ácido e crítico
mas são teus os versos riria dizendo
não preguem esse, parece música de corno
que gostavas afinal se tudo renegavas
na lareira queimando obras-primas jamais lidas
caladas no pó das cinzas, vá pra puta que o pariu
grito ao coveiro, aturdido, nada entende arrisca:
que escrevo na pedra, Dr?

De puta e de viado é feito meu Brasil
se achar pesado, caguei
larga o nome sem mais nada 
pedra folha nova esperança doída
brotar do peito inerte o perfume da derradeira poesia.

- Caio Augusto Leite

agosto 14, 2014 8:22 am

Frangalhos de fantasia

Arfando Orfeu descolore a lira
palmilha a volta desesperançada
chove quarta-feiras em fuligens silenciosas
atonal rapaz olhos de opaco brilho desamado
um ano inteiro recolhendo lantejoulas paciente
ourives da própria fantasia, sem olhar pra trás jamais
para ano que vem, reluzindo, cantar abraçar beijar perder Eurídice.

- Caio Augusto Leite

agosto 13, 2014 7:32 am

Onírico tátil

os pés são asas que pisam no infinito
até que se alcance o terreno longínquo dos sonhos
terra de chão batido, um nordestino
sonho amolado na faca, só um pouco de carinho nos espinhos das palmas

um sonho impossível para isso os pés flutuam
para que ressuscitem os mortos amados
ou que se diga a verdade das coisas a linguagem edificada caída.

no espelho de um mar um homem caminha
todos os pedidos são aceitos no gravitar do sono,
quando saltas dum abismo o corpo transcende

moves a perna inconsciente chuta o ar busca a salvação
víscera maior que o corpo o sonho rasga a pele e some

cais no chão empoeirado, o sangue floresce papoulas
a fada azul vem e te acena a vareta te ergues títere redivive
acordas para a realidade de um sonho,

de noite o abajur acende pulsando estrela
a cabeça cai no travesseiro cria raiz
em qual lado desejas em qual sofres?

pode ser que sejas apenas um anjo cheio de pesadelos
caído na terra vazia dos homens
então despertas para o que pensas ser dentro
nada é fruto sem ter sido frágil e flor 

os pés do infinito pisaram em minhas asas.

- Caio Augusto Leite

agosto 9, 2014 7:07 pm

Tossiturno

tosse fosse mais forte tuberculosa linguagem
sustentada bailarina fina ponta de faca sangrando rima
poça no chão, moça dei-te o peito deite
mais forte fosse dançaria tango no lirismo de um tórax
oca tosse sem sentido, torpe, xarope cura ligeira
silêncio & ruído, mais dor que poesia.

- Caio Augusto Leite

agosto 6, 2014 10:42 pm

Galinhas

Sei bem o que é o medo original. O medo que representa todo o corpo tolo de uma galinha inocente de seu ovo. Sei porque vi. Ou melhor, senti. Sim. Bem antes. Quando havia terreiro na casa da avó, quando havia a casa da avó, quando havia avó. Ali elas ficavam alheias à dor do mundo. E quando eu, também alheio ao mundo, me juntava com o alheamento delas era o encontro com o medo. Era eu, da escada, admirando as galinhas ciscando pra lá e pra cá. Que motivo tinham para isso, tinham rota, tinham planos de fuga? Também eu os tinha, não sei. Eu sei que tinha medo de descer, por algum tempo eu apenas contemplava. Dias e dias olhava as aves, mas aves que não voam, tristeza de ave. Pra que asas, meu Deus? Riam as pombas zombeteiras ao roubarem o milho e o alface que vovó jogava lá de cima – tchi, tchi, tchi. Era uma revoada de penas e cacarejos. Falo mesmo é de galinha, não de galo que tem coragem e imponência. Ou nunca viu aquela pessoa que sempre canta de galo? Eu não cantava. Eu não ousava mover-me dali. O primeiro degrau representava para mim um rito, uma iniciação que eu ainda não sabia se tinha forças para atravessar. Mas os olhos de tanto olhar, de tanto desejar o caminho se torna o caminho e pés e move o corpo para frente sem que se pense e um dia. Filho, pega um ovo pra vó lá embaixo. Eu olhei pros lados, era comigo? Era comigo essa missão de vida e de morte. Só podia ser comigo, sozinho que estava no quintal. Era então hoje, sem aviso e sem nenhum preparo, assim empurrado pra fora do ninho jogado ao medo mortal do desconhecido? Era assim. Era mesmo assim que a vida circulava ao redor de mim como águas calmas até que viesse a onda e a ressaca me jogando no meio do mar bravio, era preciso aprender a nadar. Ou a voar. Ainda que com asas de galinha. Eu não tinha tempo de hesitar. Vovó esperava o ovo para o bolo e para que a massa se fizesse e a vida continuasse, para que eu comesse, para que eu matasse a fome de mim e do mundo todo que comeria aquele bolo eu precisava descer. Então abri a porta do terreiro. As escadas abismais. Respirei fundo. As galinhas inocentes ciscavam. 

As galinhas inocentes, meu suspiro, a decisão e o primeiro passo. Depois o outro. Um degrau e outro e outro. Finalmente estava ali. Mas onde ficavam os ovos? Ali, ali naquele canto, naquele canto aconchegante, que galinha não era bicho de botar ovo assim em qualquer lugar. E como levá-los? Ali, a cestinha pendurada, eu ponderava tudo antes de dar o próximo passo. Mas como todos os planos que falham por serem ideias. Eu falhei. Não vi a galinha parda que se aproximou tão lentamente e estava ali, na beirada de mim. Ao primeiro passo a galinha se assustou, me bicou e correu cacarejando batendo as asas que não voavam. Era esse o medo da galinha. O medo corajoso de quem se aproxima o máximo sem saber que se pode morrer. Um medo tão imediato que a galinha só sabe do medo no momento em que o sentiu. Não como eu que já temia o terreiro antes de ali estar. A galinha era tímida e ousada. O sangue escorria quente da perna. Mas precisava dos ovos. Segurando o choro e a dor, me aproximei, coloquei todos eles na cestinha. Ovos quentes. Ovos de agora mesmo. Ainda sujos de terra. Ali estava todo o futuro interditado de uma galinha. Embora não estivessem fecundados eu podia sentir que alguma vida palpitava além da casca, uma vida remota, dissolvida em gema e clara, a vida que vovó cozinharia no bolo, pois assim somente poderíamos provar a intensidade impossível do ovo cru. Olhei para os lados, dessa vez não havia galinha por perto eu segui, sangrando, com a cesta na mão o caminho da volta. Dei os ovos à vovó e o bolo se fez alquimicamente. Mas o que é isso na sua perna, menino. Vó era mãe duas vezes e duas vezes mais preocupadas. A galinha me bicou, eu disse tão simples por ser aquilo simples e a dor nada, a dor nada mais do que a prova de existir. Eu existia. Mesmo assim ela passou remédio e fez curativo. Depois disso eu era o encarregado oficial de pegar os ovos no terreiro, mas não só isso. Às vezes ia lá sem motivo, inventava as mais banais desculpas para descer e ficar um pouco com as galinhas, aprendendo com elas o seu medo. 

Dia após dia. Aos poucos. Cada vez mais perto. Até que houve o dia que eu, tão galinha medrosa que era, consegui me integrar ao grupo e não mais assustar as penosas. Eu também penoso. Foi nesse outro dia que consegui com o silêncio dos passos e a sabedoria do medo – o medo que sabe a hora certa de fugir – que peguei a galinha parda no colo. O ferimento fechado, mas ali a cicatriz. Ela olhava com seus olhinhos de conta, olhinhos tolos, de falsa tola. Me pedia desculpas? Eu perdoava. Acariciava a sua cabeça de galinha. Cabecinha oca. Tão burra que era inteligente. Sua bobice salvadora. Anos depois conheci uma galinha. De palavra e livro. Era eu, era eu ali. Finalmente encontrara alguém que sabia o que era o medo de uma galinha. Nós, as galinhas essenciais nos disfarçarmos. Mas reconhecemos. Como eu reconheci aquela galinha parda no quintal de vovó, que não existem mais. Eu sei que ainda sou galinha, mas isso não impede que eu suba na cobertura de um prédio de cem andar e salte como quem voa, a galinha nunca se limitou ao seu voo e nem eu. Se eu me esborracho lá embaixo depois, é só pra me levantar e pular de um ponto mais alto ainda. O importante não é mesmo o voo, mas a vista da paisagem. Assim eu cisco o mundo, de grão em grão. E não há como voltar. Quando eu sinto medo, eu já fui. 

- Caio Augusto Leite

agosto 5, 2014 10:40 pm

Máscara negra

(Quanto riso, oh, quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão)

Carnaval paira no ar
meu nome é você
alívio da indomável forma
projeto do futuro desterrado
sem pais, sem país, sem raiz
multicores confeteiam chão tapete risos mijos parafernália alegoria
alegria revestida festa do não ser
quarta manhã da despedida emerge mim
alma cinza.

- Caio Augusto Leite

agosto 3, 2014 6:36 pm

Girassóis

se girassol gerasse sol plantaria sóis na avenida chuvosa paulista.
títere da imensa luz, sol soberano
rei indecapitável, sem pai, sem filho, sem tempo
baixa o cetro-luz nas cabeças desprevenidas
calor, claridão, vitamina D ossos que empoeirarão os vales
galáxias comerão as outras - não pensem nisso

beijo na mulher, filho como se fosse o último
narcísios semeados espelhos vitrines de si mesmo
- esqueçam o céu, o sol

cabeça erguida asfaltado da rua
girassóis descrevem elipses ignoram-te
confias na imortalidade da alma
raios punhais carcomem-te a pele
girassóis brotarão dos teus vermes

infinitamente a luz circula.

- Caio Augusto Leite

agosto 2, 2014 7:37 pm

Queda

falésia valei-me falir-se
onde anda ondeando lima de mar lixa de água
cortando a base procura o cerne íntimo
desequilibra rompe torre cai na areia
desmontada mistura-se entre outros grãos
nunca mais saberemos o que foi o que era
mundo mix de céu e abismo se escrevo precipício.

- Caio Augusto Leite